quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

52 - De Corumbá a Santa Cruz de la Sierra.

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Aguardando a partida do "Trem da Morte" em Puerto Quijarro, Bolívia.

Viajando no ferrobus para santa Cruz de la Sierra.

O interior da carruagem que afinal não era tão má como o nome fazia supor.
Junto a Crumbá, na divisa entre o Brasil e a Bolívia.
Aguardando o voo de Santa Cruz par La Paz que se encontra com duas horas de atraso. Enquanto isso, o Luís não perde tempo e actualiza-se lendo o último número da Veja, adquirido no Brasil.

No aeroporto de Santa cruz. Mochilita ao lado e a Veja a repousar. Olhem-me só para aquele ar de prosperidade!

Uma vista panorâmica da cidade de Santa Cruz de la Sierra, obtida a partir do miradouro da torre da igreja de S.Lourenço.
Terminal rodo-ferroviário de Santa Cruz, onde desembarcamos após 16 horas de viagem no trem da morte, vindos de Puetro Quijarro junto à fronteira com o Brasil.

No centro da cidade ainda existem algumas destas casas centenárias a recordar-nos como terá sido Santa Cruz na época da sua fundação.

Aqui, o Luís refresca-se no bar do hotel Copacabana.

Igreja de S. Lourenço, fronteira à Plaza de Armas em Santa Cruz, construcção dos séc. XIX e XX.
O "nosso" hotel em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia.

Aldeia rural boliviana da região entre Puerto Quijarro e Santa Cruz.

Outro povoado rural da mesma região.
Hoje, 24 de Dezembro e véspera de Natal, é tempo para dirigir a familiares e amigos uma palavra que expresse toda a estima e carinho que nutrimos por eles. Aqui vai um pensamento especialmente fraterno para os que se encontram em viagem, por razões de trabalho, lazer ou aventura, e que ao contrário de nós não têm a possibilidade de gozar dos prazeres do corpo e da alma próprios desta quadra, no aconchego dos seus lares. Para todos, os meus sinceros votos de Boas Festas e que o próximo ano permita a concretização dos vossos sonhos em todas as áreas, particularmente no que diz respeito às viagens! E à laia de prenda para o sapatinho, envio-vos mais este texto acompanhado de uma dose extra de fotografias.
No último contacto ficámos às portas da Bolívia numa cidade brasileira de Mato Grosso do sul chamada Corumbá, na margem esquerda do rio Paraguai. Do outro lado temos a pequena povoação de Arroyo Concepción, onde se situa o posto fronteiriço boliviano com as respectivas instalações aduaneiras e de controlo da imigração (passaportes). São instalações estratégicas com “ambiente” próprio que é de todo o interesse conhecermos antes de as franquearmos quando tal é possível, naturalmente. Observando atentamente como é que a coisa funciona, podem evitar-se alguns contratempos no momento de solicitar a almejada autorização de entrada, materializada pelo carimbo no passaporte. Com esse intuito, eu e o Luís tomámos um autocarro local na manhã do dia 2 de Dezembro cerca de quinze minutos depois fomos despejados conjuntamente com algumas dezenas de outros passageiros na boca de um carreirito que lhes evita diariamente a chatice e demora próprias dos controlos formais. Esse caminho flanqueia o posto policial a escassas dezenas de metros e é do perfeito conhecimento das autoridades, não receando estas qualquer perigo ou ameaça resultante da movimentação transfronteiriça das populações locais que se deslocam livremente na sua ida às compras ou para efeitos de trabalho. Feito o reconhecimento, ficámos a saber como se processava a fiscalização de bagagens (inexistente) e a verificação de documentos.
A pé e sob uma chuvinha molha tolos, percorremos os cinco quilómetros que nos separavam de Puerto Quijarro, em cuja estação adquirimos os bilhetes para o famoso “trem da morte” no qual embarcaríamos pelas dezoito horas desse mesmo dia, rumo a Santa Cruz de la Sierra. A designação dada a este comboio não apresenta qualquer relação com a realidade actual e terá a sua origem, segundo alguns, no elevado número de trabalhadores vítimas de acidente durante os trabalhos de construção da linha. Dizem outros que as mortes foram causadas pela epidemia de dengue que grassava na região afirmando uma terceira teoria que o nome se deve aos inúmeros assaltos e homicídios que ocorreram nas suas carruagens durante os primeiros anos de funcionamento. Facto é que viajamos num tipo de transporte "expresso" que não tem equivalência no nosso país, pois trata-se de uma composição designada por “ferrobus” (máquina +1carruagem), capaz de fazer o trajecto de Puerto Quijarro a Santa Cruz em cerca de dezasseis horas, quando o comboio normal necessita de vinte e seis horas para realizar o mesmo percurso. O nosso ferrobus estava limpo, tinha aquecimento, item não negligenciável quando se atravessa a espinha oriental da cordilheira andina durante a noite, refeições servidas no lugar, assento reclinável até à posição de semi-cama, música e cinema num monitor de dimensões generosas. Se exceptuarmos os saltos e abanões a que fomos sujeitos devido ao deficiente estado da via, até se poderia dizer que a viagem tinha sido agradável.
Às dez da manhã de 3 de Dezembro chegámos ao moderno terminal bi-modal de Santa Cruz. Chovia e o calor era de novo intenso, condições meteorológicas prevalecentes no chaco, região plana e de baixa altitude que vai até e para além de Cochabamba. A parte da viagem onde a orografia era mais acidentada foi feita durante a noite mas, ao alvorecer, começámos a distinguir o mesmo tipo de cercas e de grandes manadas de bovinos que já se tinham tornado familiares desde a entrada no Mato Grosso (Brasil). Disseram-nos que estes seiscentos quilómetros de boas terras que percorremos não têm mais do que uma dezena de proprietários, sendo o mais importante o grupo norte americano Cargill, o que faz destas fazendas propriedades gigantescas. A região parece gozar de certo grau de prosperidade comparativamente com o restante território boliviano, o que juntamente com disputas de natureza étnica tem alimentado fervores autonomistas que conduziram ao referendo realizado em simultâneo com as presidenciais de 6 de Dezembro, não obtendo o Sim mais do que 27% dos votos. Recorde-se que nestas eleições que seguimos ao pormenor a partir do nosso hotel em La Paz, Evo Morales saiu vencedor com mais de sessenta por cento dos votos.
Do terminal até à Plaza de Armas – note-se que quase todas as cidades fundadas na época da colonização espanhola têm a sua Plaza de Armas como nós temos o Rossio – não decorreram mais do que dez minutos de táxi. Aqui chegados, não foi difícil encontrar hotel, casa de câmbios ou restaurante. Afinal, estamos na segunda cidade da Bolívia, uma espécie de capital económica, dinâmica, culta e conservadora. Na sua Universidade são leccionados os mesmos cursos que encontramos em qualquer congénere europeia. Possui museus, casas de arte e cultura, galerias de exposições etc. É servida por dois aeroportos dos quais o deficientíssimo Trompilho trabalha com as linhas domésticas enquanto o moderno Viruviru está vocacionado para as ligações internacionais.
Instalados no Copacabana situado a uma das esquinas da Plaza de Armas, tivemos o privilégio de assistir a um comício político em tudo semelhante aos que se realizam cá no burgo, até na maledicência! Mas também apreciámos o bulício dos agradáveis fins de tarde nas praças e jardins da cidade, em que centenas de pessoas, dos mais jovens aos mais experientes, vêem para a rua gozando a frescura de uma brisa que sempre se segue a um repentino aguaceiro. Nestes locais não faltam os mini-espectáculos ao ar livre nem os vendedores ambulantes de gelados ou bebidas, que passam e tornam a passar sem contudo importunarem ninguém, nem mesmo apregoando os seus produtos.
A terminar, o relato na primeira pessoa de um percalço que poderia ter tido graves consequências não fora o alerta de um recepcionista/bagageiro do nosso Hotel. Pode também servir como chamada de atenção para outros e demonstra como os criminosos são capazes de se transfigurar na imagem da autoridade genuína para atingir os seus nefandos objectivos. Seguia eu quase a par com o Luís por uma das ruas do centro numa manhã de movimento particularmente intenso, quando o meu companheiro de viagem foi interpelado por alguém que a partir da janela de uma viatura 4x4 estendeu o braço exibindo uma identificação supostamente policial, conforme vim a saber pouco depois. Não querendo dar qualquer “confiança” ao interpelante, avancei alguns passos aguardando que o Luís se desembaraçasse do chatarrãoe me alcançasse. Não tardou porém que o meu amigo viesse ao meu encontro com este discurso:
- Venha daí porque ele diz que quer falar consigo …
- !?!?!?
Aproximei-me do jipe e indaguei:
- O que é que se passa?
Sem sair do interior do carro, o tipo começa a debitar uma treta mais ou menos intimidante reforçada pelo assentimento de um comparsa que entretanto se aproximou:
- Trata-nos com respeito porque nós também te estamos a falar com respeito!
Dito isto, exibe um cartão tipo multibanco onde constava uma identificação cuja autenticidade ninguém podia garantir ou negar, nem sequer a da própria fotografia. E continuou:
- Esta é uma cidade praguejada pelo narcotráfico e por isso, nós como autoridade, temos por missão identificar os estrangeiros que por aqui passam para nos assegurarmos que não estão ligados a qualquer actividade ilícita. OK? Os teus documentos?
O arrazoado tinha sido tão convincente que lhe passei o passaporte para as mãos. Entretanto, obedecendo a "ordens", o Luís já estava sentado no banco de trás do carro. Foi apenas quando o bandido me ordenou que entrasse também que um flash me passou pela cabeça e, recordando o alerta do Benito, saquei-lhe o passaporte da mão e ao mesmo tempo que ordenava ao Luís que apeasse, berrei:
- Polícia sem uniforme, não!
Recordando uma brincadeira dos meus tempos de garoto, “Ó senhor guarda, prenda-me aquele polícia!”, eu próprio gritei:
- Polícia, polícia, chamem a polícia, onde é que está a polícia …
Com este chinfrim, os gatunos não tiveram outro remédio senão pôr o pé no acelerador, entraram no caudal do trânsito e desapareceram. Só então reparei que o “coche”, aparentando ser novo, nem sequer exibia a placa de matrícula traseira.
Deste modo nos livrámos de um mais do que provável enxerto de porrada se não fosse coisa pior, corremos o risco de ficar sem os documentos e perder todos os haveres por meio de chantegem ou coacção directa.
Aqui fica de novo o alerta e mais uma vez o nosso muito obrigado ao Benito do hotel Copacabana.
Continuação de Boas Festas e agora também já são horas de eu ir às filhozes. Saudações do
Juan_jovi@sapo.pt

2 comentários:

  1. Rica Noite de Natal, sim senhor.
    Quando regressares irás com toda a certeza celebrar um novo Natal onde os receios e incertezas não possam ter lugar.
    Que a Boa Estrela te conduza no Caminho e te traga, sem receios, na Paz que todos buscamos e ansiamos e que sempre atribuimos ao nosso Lar.
    Bom Natal e Bom Ano.
    Abraços, do
    Santos Oliveira

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